TÓPICO ESPECIAL: BREVE DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DO HEBRAICO

I. O hebraico é parte da família semítica (semita) da língua do sudoeste asiático. O nome (dado por estudiosos modernos) vem do filho Noé, Sem (cf. Gn 5.32; 6.10). Os descendentes de Sem são listados em Gn 10.21-31 como árabes, hebreus, sírios, arameus e assírios. Na realidade algumas línguas semitas são usadas pelas nações listadas na linhagem de Cão (cf. Gn 10.6-14), Canaã, Fenícia e Etiópia.

O hebraico é parte do grupo noroeste dessas línguas semitas. Os estudiosos modernos têm amostras desse grupo de língua antiga do

A. Amorreu (Tabletes de Mari do século 18 A.C. em acádio)

B. Cananeu (Tabletes de Ras Shamra do século 15 em ugarítico)

C. Canaanite (Amarna Letters from 14th century in Canaanite Akkadian)

D. Fenício (o hebraico usa o alfabeto fenício)

E. Moabita (pedra de Mesha, 840 A.C.)

F. Aramaico (lingual oficial Império Persa usado em Gn 31.47 [2 palavras]; Jr 10.11; Dn 2.4b-6; 7.28; Esdras 4.8-6:18; 7.12-26 e falado pelos judeus na Palestina do primeiro século)

A língua hebraica é chamada "a língua de Canaã" em Is 19.18. Foi pela primeira vez chamado "hebraico" no prólogo de Eclesiástico (Sabedoria de Ben Sirach) por volta de 180 A.C. (e alguns outros lugares antigos, cf. Anchor Bible Dictionary [Dicionário da Bíblia Anchor], vol. 4, pp. 205ss). Está mais intimamente relacionado com o moabita e a língua usada Ugarite. Examplos do hebraico antigo encontrados fora da Bíblia são1. o calendário de Gézer, 925 A.C. (escrita de um estudante)

2. a Inscrição de Siloé, 705 A.C. (escritos de túnel)

3. Ostraca Samaritana, 770 A.C. (registros de impostos em cerâmica quebrada)

4. cartas de Laquis, 587 A.C. (comunicações de guerra)

5. moedas e selos macabeus

6. alguns textos do Rolo do Mar Morto

7. numerosas inscrições (cf. "Línguas [hebraico]," ABD 4:203ss)

Como todas as línguas semitas, é caracterizado por palavras constituídas de três consoantes (raiz tri-consonantal). É uma língua flexionada.

As três consonantes da raiz transmitem o significado básico da palavra, enquanto adições prefixadas, sufixadas ou internas mostram a função sintática (vogais posteriores, cf. Sue Green, Linguistic Analysis of Biblical Hebrew [Análise Lingüística do Hebraico Bíblico], pp. 46-49).

O vocabulário hebraico demonstra uma diferença entre prosa e poesia. Os significados da palavra são conectados com etimologias populares (não origens lingüísticas). Jogos de palavra e jogos de som são muito comuns (paronomásia).

 

II. Aspectos da Predicação

A. VERBOS

A ordem normal de palavra esperada é VERBO, PRONOME, SUJEITO (com modificadores), OBJETO (com modificadores). O VERBO básico não-sinalizado é a forma Qal, PERFEITO, MASCULINO, SINGULAR. É como os léxicos hebraico e aramaico são organizados.

Os VERBOS são flexionados para mostrar

1. número—singular, plural, duplo

2. gênero—masculino e feminino (sem neutro)

3. modo—indicativo, subjuntivo, imperativo (relação da ação com a realidade)

4. tempo (aspecto)

a. PERFEITO, que denota completude, no sentido de início, continuação e conclusão de uma ação. Geralmente esta forma era usada para ação passada, a coisa ocorreu. J. Wash Watts, A Survey of Syntax in the Hebrew Old Testament [Uma Pesquisa da Sintaxe no Antigo Testamento Hebraico], diz "O todo único descrito po um perfeito é também considerado com certo. Um imperfeito pode retratar um estado como possível ou desejado ou esperado, mas um perfeito vê-o como real, verdadeiro e certo" (p. 36).

S. R. Driver, A Treatise on the Use of the Tenses in Hebrew [Um Tratado sobre o Uso dos Tempos em Hebraico], descreve-o desta maneira:

"O perfeito é empregado para indicar ações que o cumprimento das quais encontra-se de fato no futuro, mas é considerado como dependente de uma determinação tão inalterável da vontade que pode ser falado como tendo realmente acontecido: assim uma resolução, promessa, ou decreto, especialmente divino, é freqüentemente anunciada no tempo perfeito" (p. 17, e.g., o perfeito profético).

Robert B. Chisholm, Jr. From Exegesis to Exposition [Da Exegese à Exposição], define esta forma verbal como uma que "vê uma situação de fora, com um todo. Como tal, expressa um simples fato, se seja uma ação ou estado (incluindo estado de ser ou de espírito). Quando usado para ações, freqüentemente vê a ação como completa do ponto de vista retórico do falante ou narrador (se é ou não completa de fato ou na realidade não é o ponto). O perfeito pode dizer respeito a uma ação/estado no passado, presente ou futuro. Como observado acima, a estrutura de tempo, que influencia como alguém traduza o perfeito para uma língua orientada pelo tempo como o português, deve ser determinada do contexto" (p. 86).

b. IMPERFEITO, que denota uma ação em progresso (incompleta, repetitiva, contínua ou contingente), freqüentemente movimenta-se em direção a um objetivo. Geralmente esta forma era usada para ação Presente e Futura.

J. Wash Watts, A Survey of Syntax in the Hebrew Old Testament [Uma Pesquisa da Sintaxe no Antigo Testamento Hebraico], diz

"Todos os IMPERFEITOS representam estados incompletos. São ou repetidos ou em desenvolvimento ou contingentes. Em outras palavras, ou parcialmente desenvolvidos, ou parcialmente certos. Em todos os casos, são parciais em algum sentido, i.e., incompletos" (p. 55).

Robert B. Chisholm, Jr. From Exegesis to Exposition [Da Exegese à Exposição], diz

"É difícil reduzir a essência do imperfeito a um único conceito, pois engloba tanto aspecto quanto modo. Às vezes o imperfeito é usado de uma maneira indicativa e torna uma declaração objetiva. Em outras vezes, vê uma ação mais subjetivamente, como hipotética, contingente, possível, e assim por diante" (p. 89).

c. O waw acrescentado, que liga o VERBO à ação do VERBO(s) anterior.

d. IMPERATIVO, que é baseado na volição do falante e ação potencial pelo ouvinte.

e. No hebraico antigo somente o contexto maior pode determinar as orientações de tempo pretendidas pelo autor.

B. As sete principais formas flexionadas e seu significado básico. Na realidade essas formas trabalham em conjunto uma com a outra num contexto e não devem ser isoladas.

1. Qal (Kal), a mais comum e básica de todas as formas. Denota ação simples ou um estado de ser. Nao há causa ou especificação implicada.

2. Nifal, a segunda forma mais comum. É geralmente PASSIVA, mas esta forma funciona como recíproca e reflexiva. Também não tem causa ou especificação implicada.

3. Piel, esta forma é ativa e expressa a concretização de uma ação num estado de ser. O significado básico da raiz Qal é devolvido ou estendido num estado de ser.

4. Pual, esta é a contraparte PASSIVA para o Piel. É freqüentemente expressa por um PARTICÍPIO.

5. Hitpael, que é a raiz reflexiva ou recíproca. Expressa ação iterativa ou durativa para a raiz Piel. A forma PASSIVA rara é chamada Hotpael.

6. Hifil, a forma ativa da raiz causativa em contraste ao Piel. Pode ter um aspecto permissivo, mas geralmente refere-se à causa de um evento. Ernst Jenni, um gramático alemão de hebraico, acreditava que o Piel denotava algo vindo a um estado de ser, enquanto o Hifil mostrava como isso acontecia.

7. Hofal, uma contraparte PASSIVA para o Hifil. Essas duas últimas raízes são as menos usadas das sete raízes.

Muito dessa informação vem de An Introduction to Biblical Hebrew Syntax [Uma Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico], de Bruce K. Walke e M. O'Connor, pp. 343-452.

 

Gráfico de agente e causa. Uma chave na compreensão do sistema do VERBO Hebraico é vê-lo como um padrão de relacionamentos de VOZ. Algumas raízes estão em contraste às outras raízes (i.e., Qal – Nifal; Piel – Hifil)

O gráfico abaixo tenta visualizar a função básica das raízes do VERBO quanto à causa.

 

Voz ou Sujeito

Sem Agente Secundário 

Um Agente Secundário Ativo

Um Agente Secundário Passivo

ATIVO

Qal 

Hiphil 

Piel

PASSIVO MÉDIO

Niphal 

Hophal 

Pual

REFLEXIVO/RECÍPROCO

Niphal 

Hiphil 

Hithpael

Este gráfico é tirado da excelente discussão do sistema VERBAL à luz de nova pesquisa acádia (cf. Bruce K. Waltke, M. O'Conner, An Introduction to Biblical Hebrew Syntax [Uma Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico], pp. 354-359.

R. H. Kennett, A Short Account of the Hebrew Tenses [Um Curto Relato dos Tempos do Hebraico], fornece uma advertência necessária.

"Eu tenho comumente verificado no ensino que a principal dificuldade de um estudante nos verbos hebraicos é compreender o significado que eles transmitiram às mentes dos hebreus mesmos; isto é, há uma tendência para atribuir como equivalentes a cada um dos tempos do hebraico um certo número formas do latim ou inglês pelas quais esse Tempo particular pode ser comumente traduzido. O resulta é uma falha para perceber muitas dessas finas sombras de significado, que dão tanta vida e vigor à língua do Antigo Testamento.

A dificuldade no uso dos verbos hebraicos está exclusivamente no ponto de vista, tão absolutamente diferente da nossa própria, do qual os hebreus consideravam uma ação; o tempo, que conosco é a primeira consideração, como a palavra exata, 'tempo' mostra, sendo para eles uma questão de importância secundária. É, portanto, essencial que um estudante deveria claramente compreender, não tanto as formas do latim ou inglês que podem ser usadas ao traduzir cada um dos Tempos do hebraico, mas antes o aspecto de cada ação, como ela se apresentou para a mente de um hebreu.

O nome 'tempos' enquanto aplicados aos verbos hebraicos é enganoso. Os assim chamados 'tempos' hebraicos não expressam o tempo mas meramente o estado de uma ação. De fato, não fosse pela confusão que surgiria através da aplicação do termo 'estado' tanto para substantivos quanto verbos, 'estados' seria uma designação muito melhor do que 'tempos'. Deve-se sempre ter em mente que é impossível traduzir um verbo hebraico para o inglês sem empregar uma limitação (de tempo), que está inteiramente ausente no hebraico. O hebreu antigo nunca pensava numa ação como passada, presente ou futura, mas simplesmente como perfeita, i.e., completa, ou imperfeita, i.e., como no curso de desenvolvimento. Quando dizemos que um certo tempo hebraico corresponde a um Perfeito, Mais-que-perfeito ou Futuro em inglês, não queremos dizer que os hebreus pensavam nisso como Perfeito, Mais-que-perfeito ou Futuro, mas meramente que deve ser assim traduzido em inglês. O tempo de uma ação os hebreus não tentavam expressar por uma forma verbal" (prefácio e p. 1).

Para uma segunda boa advertência, Sue Groom, Linguistic Analysis of Biblical Hebrew [Análise Lingüística do Hebraico Bíblico], lembra-nos, "Não há maneira de saber se a reconstrução dos estudiosos dos campos semânticos e relações de sentido numa língua antiga morta são meramente um reflexo de sua própria intuição, ou sua própria língua nativa, ou se esses campos existiam no hebraico Clássico" (p. 128).

C. MODOS

1. Aconteceu, está acontecendo (INDICATIVO), geralmente usa tempo PERFEITO ou PARTÍCIPIOS (todos os PARTICÍPIOS são INDICATIVOS).

2. Acontecerá, poderia acontecer (SUBJUNTIVO)

a. usa um tempo IMPERFEITO marcado

(1) COORTATIVO (acrescentava h), forma IMPERFEITA da PRIMEIRA PESSOA que normalmente expressa um desejo, um pedido, ou auto-encorajamento (i.e., ações desejada pelo falante)

(2) JUSSIVO (mudanças internas), IMPERFEITO da TERCEIRA PESSOA (pode ser segunda pessoa em sentenças negadas) que normalmente expressa um pedido, uma permissão, uma admoestação ou conselho

b. usa um tempo PERFEITO com lu ou lule

Essas construções são similares às sentenças CONDICIONAL de SEGUNDA CLASSE no grego coinê. Uma declaração falsa (prótase) resulta numa conclusão falsa (apódose).

c. usa um tempo IMPERFEITO e um lu

Contexto e lu, assim com uma orientação futura, marcam este uso do SUBJUNTIVO. Alguns exemplos de J. Wash Watts, A Survey of Syntax in the Hebrew Old Testament [Uma Pesquisa da Sintaxe no Antigo Testamento Hebraico] são Gn 13.16; Dt 1.12; I Rs 13.8; Sl 24.3; Is 1.18 (cf. pp. 76-77).

D. Waw – Conversivo/consecutivo/relativo. Esta característica sintática singular do hebraico (cananeu) tem causado grande confusão através dos anos. É usada numa variedade de maneiras muitas vezes baseada no gênero. A razão para a confusão é que os estudiosos antigos eram europeus e tentaram interpretar à luz de suas próprias línguas nativas. Quando isso se revelou difícil eles culparam o problema no hebraico ser uma "suposta" língua antiga, arcaica. As línguas européias são VERBOS baseados no TEMPO. Algumas das variedade e implicações gramaticais era especificadas pela letra WAW sendo acrescentada às raízes VERBO PERFEITO ou IMPERFEITO. Isso alterava a maneira que a ação era vista.

1. Na narrativa histórica os VERBOS são ligados entre si numa corrente com um modelo padronizado.

2. O prefixo waw mostrava um relacionamento específico como o VERBO(s) anterior.

3. O contexto maior é sempre a chave para compreender a corrente do VERBO. Os VERBOS semíticos não podem ser analisados isoladamente.

J. Wash Watts, A Survey of Syntax in the Hebrew Old Testament [Uma Pesquisa da Sintaxe no Antigo Testamento Hebraico], nota o distintivo do hebraico no seu uso do waw antes dos PERFEITOS e IMPERFEITOS (pp. 52-53). Como a idéia básica do PERFEITO é passado, a adição do waw muitas vezes projeta-o num aspecto de tempo futuro. Isso também é verdadeiro para o IMPERFEITO cuja idéia básica é presente ou futuro; a adição do waw coloca-o no passado. É essa mudança de tempo incomum que explica a adição do waw, não uma mudança no significado básico do tempo mesmo.

Os PERFEITOS waw funcionam bem com profeica, enquanto os IMPERFEITOS waw funcionam bem com narrativas (pp. 54, 68).

Watts continua sua definição

"Como uma distinção fundamental entre o waw conjuntivo e o waw consecutivo, as seguintes interpretações são oferecidas:

1. Waw conjuntivo aparece sempre para indicar um paralelo.

2. Waw consecutivo aparece sempre para indicar uma seqüência. É a única forma do waw usada com imperfeitos consecutivos. A relação entre os imperfeitos ligados por ele pode ser seqüência temporal, conseqüência lógica, causa lógica ou contraste lógico. Em todos os casos há uma seqüência" (p. 103).

E. INFINITIVO – Há dois tipos de INFINITIVOS

1. INFINITIVO ABSOLUTO, que são "expressões fortes, independentes, marcantes usadas para efeito dramático. . .como um sujeito, freqüentemente não tem verbo escrito, o verbo 'ser' sendo compreendido, claro, mas a palavra permanecendo dramaticamente só" J. Wash Watts, A Survey of Syntax in the Hebrew Old Testament [Uma Pesquisa da Sintaxe no Antigo Testamento Hebraico] (p. 92).

2. INFINITIVO CONSTRUTO, que são "relacionado gramaticalmente com a sentença por preposições, pronomes possessivos e o relacionamento construto" (p. 91).

J. Weingreen, A Practical Grammar for Classical Hebrew [Uma Gramática Prática para o Hebraico Clássico], descreve o estado construto como:

"Quando duas (ou mais) palavras estão tão intimamente unidas que juntas elas constituem uma idéia composta, diz-se que a palavra dependente (ou palavras) está (estão) no estado construto" (p. 44).

F. INTERROGATIVOS

1. Sempre aparecem primeiro na sentença.

2. Significado Interpretativo

a. ha – não espera uma resposta

b. halo' – o autor espera uma reposta "sim"

   NEGATIVOS

1. Sempre aparecem antes das palavras que eles negam.

2. A negação mais comum é lo'.

3. O termo 'al tem uma conotação contingente e é usado com COORTATIVOS e JUSSIVOS.

4. O termo lebhilti, que significa "a fim de que. . .não," é usado com INFINITIVOS.

5. The termo 'en é usado com PARTICÍPIOS.

G. SENTENÇAS CONDITIONAIS

1. Há quatro tipos de sentenças condicionais que basicamente são igualadas no grego coinê.

a. algo suposto estar acontecendo ou considerado como cumprido (PRIMEIRA CLASSE em grego)

b. algo contrário ao fato cujo cumprimento é impossível (SEGUNDA CLASSE)

c. algo que é possível ou mesmo provável (TERCEIRA CLASSE)

d. algo que é menos provável; portanto, o cumprimento é dúbio (QUARTA CLASSE)

2. INDICADORES GRAMATICAIS

a. a condição suposta ser verdadeira ou real sempre usa um INDICATIVO PERFEITO ou PARTICÍPIO e geralmente a prótase é introduzida por

(1) 'im

(2) ki (ou 'asher)

(3) hin ou hinneh

b. a condição contrária ao fato sempre usa um VERBO de aspecto PERFEITO ou um PARTICÍPIO com o PARTICÍPIO introdutório lu ou lule

c. a condição mais probável sempre usava VERBO IMPERFEITO ou PARTICÍPIOS na prótase, geralmente 'im ou ki são usados como PARTICÍPIOS introdutórios

d. a condição menos provável usa SUBJUNTIVOS IMPERFEITOS na prótase e sempre usa 'im como um PARTICÍPIO introdutório

 

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