TÓPICO ESPECIAL: INTRODUÇÃO A LITERATURA DE SABEDORIA

I. O GÊNERO

A. Tipo literário comum no antigo Oriente Próximo (R. J. Williams, "Wisdom in the Ancient Near East," Interpreter Dictionary of the Bible [Dicionário do Intérprete da Bíblia], Suplemento)

1. Mesopotâmia (I Rs 4.30, 31; Is 47.10; Dn 1.20; 2.2)

a. A Suméria tinha desenvolvido a tradição de sabedoria tanto proverbial quanto épica (textos de Nippur).

b. A sabedoria proverbial da Babilônia estava relacionada com o sacerdote/mago. Não era moralmente focada (W. G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature [Literatura de Sabedoria Babilônica]. Não era um gênero desenvolvido como em Israel.

c. A Assíria também tinha uma tradição de sabedoria; um exemplo seria os ensinamentos de Ahiqar. Ele foi um conselheiro para Senaqueribe (704-681 A.C.).

2. Egito (I Rs 4.30; Gn 4.18; Is 19.11, 12)

a. "O Ensinamento para Vizir Ptah-hotep", escrito aproximadamente 2450 A.C. Seus ensinos estavam em forma de parágrafo, não proverbial. Eles estavam estruturados como um pai para seu filho, assim também, "Os Ensinos para o Rei Meri-ka-re", aproximadamente 2200 A.C. (LaSor, Hubbard, Bush, Old Testament Survey [Pesquisa do Antigo Testamento], p. 533).

b. A Sabedoria de Amenemopet, escrita aproximadamente 1200 A.C., é muito similar a Pv 22.17-24.22.

3. Fenícia (Ez 27.8, 9; 28.3-5)

a. As descobertas em Ugarite têm mostrado a relação próxima entre a sabedoria fenícia e hebraica, especialmente o metro. Muitas das formas incomuns e palavras raras na Literatura de Sabedoria bíblica são agora compreensíveis a partir das descobertas arqueológicas em Ras Shamra (Ugarite).

b. Cantares é muitíssimo parecido com canções de casamento fenícias chamadas wasps escritas aproximadamente 600 A.C.

4. Canaã (i.e. Edom, Jr 49.7; Obadias 8) – Albright revelou a similaridade entre a literatura de sabedoria hebraica e cananéia especialmente os textos de Ras Shamra de Ugarite, escritos aproximadamente no século 15 A.C.

a. muitas vezes as mesmas palavras aparecem como pares

b. presença de quiasmo

c. têm sobrescritos

d. têm notações musicais

5. Literatura de Sabedoria Bíblica inclui os escritos de vários não-israelitas:

a. Jó de Edom

b. Agur de Massá (um reino israelita na Arábia Saudita (cf. Gênesis 25.14 e I Crônicas 1.30)

c. Lemuel de Massá

6. Há dois livros não-canônicos judeus que compartilham essa forma de gênero.

a. Eclesiástico (Sabedoria de Ben Siraque)

b. Sabedoria de Salomão (sabedoria)

B. Características literárias

1. Fundamentalmente dois tipos distintos

a. Diretrizes proverbiais para uma vida feliz, bem-sucedida (originalmente oral, cf. Pv 1.8; 4.1)

(1) curto

(2) facilmente culturalmente compreendido (experiência comum)

(3) provocante de pensamento – declarações de detenção da verdade

(4) geralmente usa contraste

(5) geralmente verdadeiro mas nem sempre especificamente aplicável

b. tópico especial desenvolvido mais longo, obras literárias (geralmente escritas) como Jó, Eclesiastes e Jonas.

(1) monólogos

(2) diálogos

(3) ensaios

(4) eles tratam com questões e mistérios importantes da vida

(5) os sábios estavam dispostos a desafiar o status quo teológico!

c. personificação da sabedoria (sempre feminina). O termo sabedoria era feminino.

(1) muitas vezes em Provérbios a sabedoria é descrita como uma mulher (cf. 1.8-9.18)

(a) positivamente:

i. 1.20-33

ii. 4.6-9

iii. 8.1-36

iv. 9.1-6

(b) negativamente:

i. 7.6-27

ii. 9.13-18

(2) em Provérbios 8.22-31 a sabedoria é personificada como o primogênito da criação pelo qual Deus criou tudo mais (3.19, 20; Sl 104.24; Jr 10.12). Isto pode ser o pano de fundo do uso de João de "Logos" em João 1.1 para se referir a Jesus o Messias.

(3) isto pode também ser visto em Eclesiático 24.

2. Esta literatura é única da Lei e os Profetas (cf. Jr 18.18) em que ela se dirige ao indivíduo não à nação. Não há alusões históricas ou cúlticas. Foca fundamentalmente na vida diária, bem-sucedida, alegre, moral.

3. Literatura de sabedoria bíblica é similar àquela dos vizinhos dos arredores em sua estrutura mas não no conteúdo. O Único Deus verdadeiro é o fundamento em que toda sabedoria bíblica está baseada (e.g. Gn 41.38, 39; Jó 12.13; 28.28; Pv 1.7; 9.10; Sl 111.10). Na Babilônia era Apsu, Ea ou Marduque. No Egito era Toth.

4. A sabedoria hebraica era muito prática. Era baseada na experiência, não revelação especial. Focava num indivíduo sendo bem-sucedido na vida (tudo da vida: sagrada e secular). É o "bom senso" divino.

5. Porque a literatura de sabedoria usava a razão, experiência e observação humana era internacional, transcultural. Era a visão de mundo religiosa monoteística que não é freqüentemente afirmada, que tornou a sabedoria de Israel revelatória.

 

II. POSSÍVEIS ORIGENS

A. A Literatura de Sabedoria se desenvolveu em Israel como alternativa ou equilíbrio às outras formas de revelação (Jr 18.18; Ez 7.26)

1. sacerdote – lei – forma (coletiva)

2. profeta – oráculo – motivo (coletiva)

3. sábio – sabedoria – vida diária bem-sucedida, prática (individual)

4. Como houve profetisas em Israel (Miriam, Hulda) assim, também, houve sábias (cf. II Sm 14.1-21; 20.14-22).

B. Este tipo de literatura pareceu ter se desenvolvido:

1. como histórias folclóricas ao redor de fogueiras de acampamento

2. como tradições de família passadas adiante para os filhos

3. escrita e apoiada pelo Palácio Real:

a. Davi é relacionado aos Salmos

b. Salomão é relacionado a Provérbios (I Rs 4.29-34; Sl 72 & 127; Pv 1.1; 10.1; 25.1)

c. Ezequias é relacionado a editar a literatura de sabedoria (Pv 25.1)

 

III. PROPÓSITO

A. É basicamente um foco "como" na felicidade e sucesso. É fundamentalmente individual em seu foco. É baseada em:

1. a experiência de gerações anteriores

2. relacionamentos causa e efeito na vida

B. Foi a maneira da sociedade passar adiante a verdade e preparar a próxima geração de líderes e cidadãos.

C. Sabedoria do AT, embora nem sempre expressando-o, vê o Deus da Aliança por trás de toda a vida. Para os hebreus não havia divisão forte entre o sagrada e secular. Tudo da vida era sagrado.

D. Era uma maneira de desafiar e equilibrar a teologia tradicional. Estes sábios eram pensadores livres não atados por verdades de livro texto. Eles se atreviam a perguntar, "Por que", "Como", "E se?"

 

IV. CHAVES PARA INTERPRETAÇÃO

A. Afirmações proverbiais curtas

1. procuram elementos comuns da vida usados para expressar a verdade.

2. expressam a verdade central numa simples sentença declarativa.

3. visto que o contexto não ajudará a procurar passagens paralelas sobre o mesmo assunto.

B. Peças literárias mais longas

1. tenha certeza de expressar a verdade central do todo.

2. não retire versículos do contexto.

3. examine a ocasião histórica ou razão da escrita.

C. Algumas interpretações errôneas comuns (Fee & Stuart, Entendes o Que Lês?, p. 196)

1. As pessoas não lêem todo o livro de Sabedoria (como Jó e Ec) e procuram sua verdade principal, mas retiram partes do livro de seu contexto e aplicam-no literalmente à vida moderna.

2. As pessoas não entendem a singularidade do gênero literário. Esta é uma literatura altamente compacta e figurada do Antigo Oriente Próximo.

3. Provérbios são declarações de verdade geral. Eles são movimentos amplos da pena, não especificamente verdadeiras, em cada caso, cada momento, declarações da verdade.

 

V. EXEMPLOS BÍBLICOS

A. Antigo Testamento

1. Jó

2. Salmos 1, 19, 32, 34, 37 (acróstico), 49, 78, 104, 107, 110, 112-119 (acróstico), 127-128, 133, 147, 148

3. Provérbios

4. Eclesiastes

5. Cantares

6. Lamentações

7. Jonas

B. Extra canônico

1. Tobias

2. Sabedoria de Ben Siraque (Eclesiástico)

3. Sabedoria de Salomão (Livro de Sabedoria)

4. IV Macabeus

C. Novo Testamento

1. Os provérbios e parábolas de Jesus

2. O livro de Tiago

 

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