TÓPICO ESPECIAL: Predestinação (Calvinismo) Versus Arminianismo Livre Arbítrio Humano (Arminismo)

 

Tito 2.11 é um equilíbrio para outras passagens sobre eleição. I achei que poderia ser teologicamente útil fornecer notas do meu comentário de Romanos 8.29 e 9, assim como Efésios 1.

I. Romanos 8.29 – Paulo usa "conheceu” (proginōskō, "conhecer antes”) duas vezes, aqui e 11.2. em 11.12 refere-se ao amor pactual de Deus para Israel antes que o tempo começasse. Lembre que o termo "conhecer” em hebraico relacionava-se ao relacionamento íntimo, pessoal, não a fatos sobre alguém (cf. Gn 4.1; Jr 1.5). Aqui foi incluído numa corrente de eventos eternos (cf. Rm 8.29, 30). Este termo estava vinculado com predestinação. No entanto, deve ser afirmado que a presciência de Deus não é a base da eleição porque se isso fosse assim, então a eleição estaria baseada na resposta futura da humanidade caída, que seria desempenho humano. Este termo é também encontrado em Atos 26.5; I Pe 1.2, 20 e II Pe 3.17.

A. "conheceu” (proginōskō, "conhecer antes”)

O termo "conhecer” e "predestinação” são ambos compostos com a preposição "antes” e, portanto, deveriam ser traduzidos "conhecer antes”, "estabelecer limites antes” ou "marcar antes”. As passagens definitivas sobre predestinação no NT são Rm 8.28-30; Ef 1.13, 14; e Rm 9. Estes textos obviamente enfatizam que Deus é soberano. Ele está no controle total de todas as coisas. Há um plano divino pré-ajustado sendo elaborado no tempo. Entretanto, este plano não é arbitrário ou seletivo. Está baseado na soberania e presciência de Deus, mas no Seu caráter imutável de amor, misericórdia e graça não merecidos. Veja o Tópico Especial: Eterno plano redentor de YHWH.

Nós devemos ter cuidado com nosso individualismo ocidental (americano) ou nosso zelo evangélico colorindo esta verdade maravilhosa. Nós devemos também prevenir-nos contra estar polarizados nos conflitos históricos, filosóficos entre Agostinho versus Pelágio ou calvinismo versus arminianismo.

B. "predestinou” (proorizō, "estabelecer limites antes”)

Predestinação não é uma doutrina destinada a limitar o amor, graça e misericórdia de Deus nem para excluir alguém do evangelho. É destinada a fortalecer os crentes moldando sua visão de mundo. Quem ou que nos separa dEle (cf. Rm 8.31-39)? Deus vê toda a história como presente; os humanos são limitados pelo tempo. Nossa perspectiva e habilidades mentais são limitadas. Não há contradição entre a soberania de Deus e o livre arbítrio da humanidade. É uma estrutura pactual. Este é um outro exemplo da verdade dada em tensão dialética. Doutrinas bíblicas são apresentadas de perspectivas diferentes. Elas frequentemente parecem paradoxais. A verdade é um equilíbrio entre pares aparentemente opostos. Nós não devemos remover a tensão pegando uma das verdades. Nós não devemos isolar nenhuma verdade bíblica num compartimento sozinha.

É também importante acrescentar que a meta da eleição não é somente o céu quando nós morrermos, mas semelhança a Cristo agora (cf. Rm 8.29; Ef 1.4; 2.10). Nós fomos escolhidos para sermos "santos e irrepreensíveis”. Deus escolhe transformar-nos de modo que outros possam ver a mudança e responder por fé a Deus em Cristo. Predestinação não é um privilégio pessoal, mas uma responsabilidade pactual. Esta é a verdade principal da passagem. Esta é a meta do cristianismo. Santidade é a vontade de Deus para todo crente. A eleição de Deus é para semelhança a Cristo (cf. Ef 1.4), não um prestígio especial. A imagem de Deus, que foi dada ao homem na criação (cf. Gn 1.26; 5.1, 3; 9.6) deve ser restaurada.

C. "conformados à imagem do Seu Filho” – a meta final de Deus é a restauração da imagem perdida na queda. Os crentes são preordenados à semelhança a Cristo (cf. Ef 1.4).

II. Romanos 9

A. Romanos 9 é uma das mais fortes passagens sobre a soberania de Deus (a outra sendo Ef 1.3-14), enquanto o capítulo 10 afirma o livro arbítrio dos humanos claramente e repetidamente (cf. "todo” v. 4: "aquele que” vv. 11, 13; "todos” v. 12 [duas vezes]). Paulo nunca tenta reconciliar esta tensão teológica. Elas duas são verdadeiras! A maioria das doutrinas da Bíblia são apresentadas em pares paradoxais ou dialéticos. A maioria dos sistemas de teologia são meias verdades lógicas. Agostinianismo e calvinismo versus semi-pelagianismo e Arminianismo têm elementos de verdade e erro. Tensão bíblica entre doutrinas é preferível a um sistema teológico, de texto-prova, dogmático, racional, que força a Bíblia a uma grade interpretativa preconcebida.

B. Esta mesma verdade (encontrada em Rm 9.23) é afirmada em Rm 8.29, 30 e Ef 1.4, 11. Este capítulo é a expressão mais forte da soberania de Deus no NT. Não pode haver disputa de que Deus está no cuidado total da criação e redenção. Esta grande nunca deveria atenuada ou diminuída. No entanto, deve ser equilibrada com a escolha de Deus da aliança como um meio de relacionar-se com a criação humana, feita à Sua imagem. É certamente verdadeiro que algumas alianças do AT, como Gênesis 15, são incondicionais e não se relacionam em absoluto como resposta humana, mas outras alianças são condicionadas na resposta humana (e.g., Éden, Noé, Moisés, Davi). Deus tem um plano de redenção para Sua criação; nenhum humano pode afetar este plano. Deus escolheu permitir aos indivíduos participarem dos Seus planos. Esta oportunidade para participação é uma tensão teológica entre soberania (Romanos 9) e livre arbítrio humano (Romanos 10).

Não é apropriado selecionar uma ênfase e ignorar a outra. Há uma tensão entre doutrinas porque o povo oriental apresenta a verdade em pares dialéticos ou cheios de tensão. As doutrinas devem ser consideradas em relacionamento com outras doutrinas. A verdade é um mosaico de verdades.

III. Efésios 1

A. A eleição é uma doutrina maravilhosa. Contudo, isso não é um chamado ao favoritismo, mas um chamado para ser um canal, uma ferramenta ou meio para a redenção de outros! No AT o termo era usado primordialmente para serviço; no NT é usado primordialmente para salvação que resulta em serviço. A Bíblia nunca reconcilia a aparente contradição entre a soberania de Deus e o livre arbítrio da humanidade, mas afirma ambas! Um bom exemplo da tensão bíblica seria Romanos 9 sobre a escolha soberana de Deus e Romanos 10 sobre a necessária resposta da humanidade (cf. 10.11, 13).

A chave para esta tensão teológica pode ser encontrada em 1.4. Jesus é o homem eleito de Deus e todos são potencialmente eleitos nEle (Karl Barth). Jesus é o "sim” de Deus para a necessidade da humanidade caída (Karl Barth). Efésios 1.4 também ajuda a esclarecer a questão afirmando que a meta da predestinação não é o céu, mas a santidade (semelhança a Cristo). Somos frequentemente atraídos para os benefícios do evangelho e ignoramos as responsabilidades! O chamado de Deus (eleição) é para o tempo assim como para a eternidade!

As doutrinas veem em relação a outras verdades, não como únicas, verdades não relacionadas. Uma boa analogia seria uma constelação versus uma única estrela. Deus apresenta a verdade nos gêneros orientais, não ocidentais. Não devemos remover a tensão causada pelos pares dialéticos (paradoxos) de verdades doutrinárias (Deus como transcendente versus Deus como imanente; segurança versus perseverança; Jesus como igual com o Pai versus Jesus subserviente ao Pai; liberdade cristã versus responsabilidade cristã a uma parceiro pactual, etc.).

O conceito teológico de "aliança” une a soberania de Deus (que sempre toma a iniciativa e estabelece a pauta) com uma resposta de fé arrependida inicial e contínua obrigatória do homem. Tenha cuidado com texto-prova de um lado do paradoxo e menosprezo do outro! Tenha cuidado com afirmar somente sua doutrina ou sistema de teologia favorito.

B. "Nos escolheu” em Ef 1.4 é um indicativo aoristo médio que enfatiza sujeito. Isto foca na escolha do Pai antes do tempo. A escolha de Deus não deve ser compreendida no sentido islâmico de determinismo, nem no sentido ultra-calvinista como alguns versus outros, mas no sentido pactual. Deus prometeu remir a humanidade caída (cf. Gn 3.15). Deus chamou e escolheu Abraão para escolher todos os humanos (cf. Gn 12.3; Êx 19.5, 6). Deus mesmo elegeu todas as pessoas que exercitariam fé em Cristo. Deus sempre toma a iniciativa na salvação (cf. João 6.44, 65). Este texto e Romanos 9 são a base bíblica para a doutrina da predestinação enfatizada por Agostinho e Calvino.

Deus escolheu os crentes não somente para salvação (justificação), mas também para santificação (cf. Colossenses 1.10-12). Isto poderia relacionar-se com (1) nossa posição em Cristo (cf. II Co 5.21) ou (2) o desejo de Deus de reproduzir Seu caráter nos Seus filhos (cf. 2.10; Rm 8.28, 29; Gl 4.19). A vontade de para Seus filhos é tanto o céu um dia quanto semelhança a Cristo agora!

"Nele” é o conceito chave de Ef. 1.4. As bênçãos, graça e salvação do Pai fluem através de Cristo (cf. João 14.6). Observe a repetição desta forma gramatical (locativo de esfera) no v. 3, "em Cristo”; v. 4, "nele”; v. 7, "no qual”; v. 9, "em Cristo”; v. 10, "nele”; v. 12, "em Cristo”; e v. 13, "em quem”, "nele”. Jesus é o "sim” de Deus para a humanidade caída (Karl Barth). Jesus é o homem eleito de Deus e todos são potencialmente eleitos nEle (Karl Barth). Todas as bênçãos do Pai fluem através de Cristo.

A frase "antes da fundação do mundo” é também usada em Mt 25.34; João 17.24; I Pe 1.19, 20 e Ap 13.8. Isso mostra a atividade redentiva do Deus Triúno ainda antes de Gn 1.1. Os humanos são limitados pelo seu sentido de tempo; tudo para nós é passado, presente e futuro, mas não para Deus.

A meta da predestinação é a santidade, não privilégio. O chamado de Deus não é para alguns selecionados dos filhos de adão, mas para todos! É um chamado para ser o que Deus pretendia que a humanidade fosse, como Ele mesmo (cf. I Ts 5.23; II Ts 2.13); à Sua imagem (cf. Gn 1.26, 27). Transformar a predestinação numa doutrina teológica em vez de uma vida santa é uma tragédia. Muitas vezes nossas teologias falam mais alto do que o texto bíblico.

O termo "irrepreensível” (amōmos) ou "livre de mancha” é usado para

1. Jesus (cf. Hb 9.14; I Pe 1.19);

2. Zacarias e Isabel (cf. Lucas 1.6);

3. Paulo (cf. Fp 3.6); e (4) todos os verdadeiros cristãos (cf. Fp 2.15; I Ts 3.13; 5.23).

A vontade inalterável de Deus para cada crente não é apenas o céu mais tarde, mas semelhança a Cristo agora (cf. Rm 8.29, 30; Gl 4.19; I Pe 1.2). Os crentes devem refletir as características de Deus para um mundo perdido para o propósito do evangelismo.

Gramaticalmente a frase "em amor” neste versículo poderia combinar ou com o v. 4 ou v. 5. No entanto, quando esta frase é usada em outros lugares em Efésios ela sempre se refere ao amor por Deus (cf. 3.17; 4.2, 15, 16).

C. Em Ef 1.5 a frase "nos predestinou” é um particípio aoristo ativo. Este termo grego é um composto de "antes” e "marcar”. Refere-se ao plano redentivo predeterminado de Deus (cf. Lucas 22.22; Atos 2.23; 4.28; 17.31; Rm 8.29, 30). Predestinação é uma das várias verdades relacionadas com a salvação da humanidade. É parte de um padrão ou série teológica de verdades relacionadas. Nunca foi destinada a ser enfatizada isolada! A verdade bíblica foi dada numa série de pares paradoxais, cheios de tensão. O denominacionalismo tem tendido a remover a tensão bíblica enfatizando uma das verdades dialéticas (predestinação versus livre arbítrio humano; pecado original versus pecado volitivo; impecabilidade versus pecar menos; santificação declarada instantaneamente versus santificação progressiva; fé versus obra; liberdade cristã versus responsabilidade cristã; transcendência versus imanência).

A escolha de Deus não está baseada na presciência do desempenho do ser humano, mas no Seu caráter gracioso (cf. vv. 9 & 11). Ele gostaria que todos (não apenas alguns especiais como os gnósticos ou ultra-calvinistas modernos) fossem salvos (cf. Ez 18.21-23, 32; João 3.16, 17; I Tm 2.4; 4.10; Tito 2.11; II Pe 3.9). A graça de Deus (o caráter de Deus) é a chave teológica para esta passagem (cf. vv. 6a, 7c, 9b), como a misericórdia de Deus é a chave para a outra passagem sobre predestinação, Romanos 9-11.

A única esperança da humanidade caída é a graça de Deus (cf. Is 53.6 e vários outros textos do AT citados em Rm 3.9-18). É crucial interpretar estes primeiros capítulos teológicos para perceber que Paulo enfatiza aquelas coisas que estão totalmente relacionadas com o desempenho humano: predestinação (cap. 1), graça (cap. 2) e o plano de redenção eterno de Deus (mistério, 2.11-3.13). Isto devia contrabalançar a ênfase dos falsos mestres no mérito e orgulho humanos.