TÓPICO ESPECIAL: UMA ABORDAGEM HERMENÊUTICA A GÊNESIS 1-11

 

A. Estudar Gênesis 1-11 é difícil porque

1. somos todos afetados por nossas próprias culturas treinamento denominacional

2. hoje várias pressões afetam conscentemente e subconscientemente afetam nossa visão de "os começos"

a. arqueologia moderna (paralelos mesopotâmicos)

b. ciência moderna (teorias correntes)

c. a história da interpretação

(1) judaísmo

(2) igreja primitiva

3. esta unidade literária de abertura da Bíblia é apresentada como história, mas várias coisas surpreendem o intérprete

a. paralelos mesopotâmicos

b. técnicas literárias orientais (dois aparentes relatos da criação)

c. eventos incomuns

(1) mulher criada de uma "costela"

(2) uma cobra falante

(3) um barco com todos os animais a bordo por um ano

(4) mistura de anjos e seres humanos

(5) vida longa das pessoas

d. vários jogos de palavra nos nomes dos principais personagens (cf. K. 3)

4. os cristãos precisam ser lembrados de como o NT reinterpreta Gênesis 1 e 2 à luz de Cristo. Ele é o agente do Pai na criação (cf. João 1.3, 10; I Co 8.6; Hb 1.2), tanto do terreno visível quanto invisível (cf. Co 1.16). Esta nova revelação mostra a necessidade de ser cuidadoso com literalismo em Gênesis 1-3. A Trindade está envolvida na criação.

a. Deus o Pai em Gênesis 1.1

b. Deus o Espírito em Gênesis 1.2

c. Deus o Filho no NT.

Isto pode explicar os PLURAIS em Gênesis 1.26; 5.1, 3; 9.6

B. Gênesis 1-11 não é um document científico, mas de algumas maneiras a ciência moderna assemelha sua apresentação (ordem da criação e níveis geológicos). Não é anti-científico mas pré-científico. Apresenta a verdade

1. de uma perspectiva da terra

2. de uma perspectiva fenomenológica (i.e. os cinco sentidos)

Tem funcionado como um revelador da verdade para muitas culturas durante muitos anos. Apresenta a verdade para uma cultura científica moderna mas sem explicação específica dos eventos.

C. É incrivelmente sucinto, lindamente descrito e artisticamente estruturado.

1. as coisas se dividem

2. as coisas se desenvolvem

D. As chaves para sua compreensão são encontradas em

1. seu gênero

2. sua relação com sua própria época

3. sua estrutura

4. seu monoteísmo

5. seu propósito teológico

A interpretação deve equilibrar

1. uma exegese dos versículos

2. uma compreensão sistemática de toda a Escritura

3. especificidade do gênero

Revela a origem das coisas físicas ("e era boa", cf. 1:31) e a corrupção dessas coisas (cf. 3). De muitas maneiras o evento Cristo é uma nova criação e Jesus é o novo Adão (cf. Rm 5.12-21). A nova era pode ser uma restauração do jardim do Éden e sua comunhão íntima com Deus e os animais (compare Gênesis 1-2 com Apocalipse 21-22).

E. A grande verdade deste capítulo não é como ou quando, mas quem, movendo rapidamente para por quê!

F. Gênesis reflete conhecimento verdadeiro mas não conhecimento exaustivo. É dado a nós em formas de pensamento antigas (mesopotâmicas), mas é verdade infalível. Está relacionado com sua época, mas é totalmente único. Fala do inexprimível, contudo fala verdadeiramente. Basicamente é uma cosmovisão (quem), não uma visão de mundo (como).

G. Sem Gênesis 1-3 a Bíblia é incompreensível. Observe quão rapidamente a história move do (1) pecado para redenção e (2) humanidade para Israel. A criação forma uma parte integral mas passageira do relato da escolha de Deus de Israel para o propósito da redenção do mundo (cf. Gn 3.15; 12.3; Êx 19.5, 6 e João 3.16; I Tm 2.4; II Pe 3.9).

H. Sua resposta para a pergunta, "Qual é o propósito da Inspiração e Revelação?" afetará a maneira que você vê Gênesis 1. Se você vê o propósito como a revelação de fatos sobre a criação, você o verá de uma maneira (i.e. verdades proposicionais). Se você o vê como transmitindo verdades gerais sobre Deus, humanidade e pecado, então possivelmente você o verá teologicamente (i.e. paradigmático). Se, no entanto, você vê o propósito básico como o estabelecimento de um relacionamento entre Deus e o gênero humano, possivelmente uma outra (i.e. existencialmente).

I. Esta seção de Gênesis é certamente teológica. Como as pragas do Êxodo mostraram o poder de YHWH sobre os deuses da natureza do Egito, Gênesis 1, 2 podem mostra o poder de YHWH sobre os deuses astrais da Mesopotâmia. O elemento principal é Deus. Deus somente o fez para Seus próprios propósitos.

J. Fico maravilhado na minha própria ignorância! Estou abismado com meu próprio condicionamento histórico, cultural e denominacional! Que Deus poderoso nós servimos! Que Deus incrível chegou-se a nós (mesmo na nossa rebelião)! A Bíblia é um equilíbrio de amor e poder; graça e justiça! Quanto mais nós conhecemos mais nós sabemos que não conhecemos!

K. Aqui estão as abordagens básicas de alguns livros úteis:

1. Genesis 1-2 interpretado ao longo das linhas da ciência moderna:

a. The Christian's View of Science and Scripture [A Visão do Cristão da Ciência e Escritura] (bom cientificamente e teologicamente) de Barnard Ramm

b. Creation and Time [Criação e Tempo] e The Genesis Question [A Questão do Gênesis] (bom cientificamente mas fraco teologicamente) de Hugh Ross

c. Science and Faith: An Evangelical Dialog [Ciência e Fé: Um Diálogo Evangélico] (muito útil) de Harry Peo e Jimmy Davis

d. Darrel R. Falk, Coming to Peace with Science: Bridging the Worlds Between Faith and Biology [Fazendo as Pazes com a Ciência: Unindo os Mundos entre a Fé e a Biologia] (abordagem evangélica à evolução teísta)

2. Gênesis 1-2 interpretado juntamente com as linhas de paralelos do antigo Oriente Próximo

a. Introduction to the Old Testament [Introdução ao Antigo Testamento] e Old Testament Times [Tempos do Antigo Testamento] de R. K. Harrison

b. Ancient Israelite Literature in Its Cultural Context [Literatura Israelita Antiga no Seu Contexto Cultural] de John H. Walton

c. Ancient Orient and Old Testament [Oriente Antigo e Antigo Testamento] de K. A. Kitchen

d. The Stones and the Scriptures [As Pedras e as Escrituras] de Edwin M. Yamauchi

3. Gênesis 1-2 interpretado junamente com as linhas da teologia de Old Testament Survey [Pesquisa do Antigo Testamento] de LaSor, Hubbard e Bush

a. "Dispositivo literário também é encontrado nos nomes usados. A correspondência do nome com a função ou papel da pessoa é impressionante em vários exemplos. Adão significa "gênero humano" e Eva é "(aquela que dá) vida". Certamente, quando um autor de uma história chama os personagens principais Gênero humano e Vida, algo é transmitido sobre o grau de literalidade pretendida! Similarmente Caim significa "falsificador (de metais)"; Enoque é conectado com "dedicação, consagração" (4.17; 5.18); Jubal com chifre e trombeta (4.21); enquanto Caim, condenado a ser nād, um "vagabundo," vai morar na terra de Nod, um nome transparentemente derivado da mesma raiz hebraica, assim a terra da peregrinação! Isso sugere que o autor está escrevendo como um artista, um narrador, usa dispositivo e artifício literário. Você deve se esforçar para distinguir que ele pretende ensinar do meio literário empregado" (p. 72).

b. a implicação teológica de Gênesis 1-11

"Implicação para Gn 1-11. Reconhecer a técnica e forma literária e notar o fundo literário dos capítulos 1-11 não constitui um desafio para a realidade, a "regularidade", dos fatos retratados. Ninguém precisa considerar este relato como mito; no entanto, não é "história" no sentido moderno de testemunha ocular, informação objetiva. Antes, transmite verdades teológicas sobre eventos, retratados num gênero literário amplamente simbólico, pictórico. Isso não para dizer que Gn 1-11 transmite falsidade histórica. Essa conclusão seguiria somente se pretendesse conter descrições objetivas. A evidência clara já revista mostra que tal não foi a intenção. Por outro lado, a visão que as verdades ensinadas nesses capítulos não têm base objetiva é equivocada. Eles afirmam verdades fundamentais: criação de todas as coisas por Deus; intervenção divina especial na produção do primeiro homem e mulher; unidade da raça humana; bondade primitiva do mundo criado, incluindo a humanidade; entrada do pecado através da desobediência do primeiro casal; depravação e pecado desenfreado depois da Queda. Todas essas verdades são fatos, e sua certeza implica a realidade dos fatos. Posto de outra maneira, o autor bíblico usa tais tradições literárias para descrever eventos primitivos únicos que não têm analogia histórica condicionada pelo tempo, condicionada pelo homem, baseada na experiência e por isso pode ser descrita somente por símbolo. O mesmo problema surge no fim dos tempos: o autor bíblico lá, no livro de Apocalipse, adota o imaginário esotérico e envolveu artifício literário do apocalíptico" (p. 74).

c. Se for verdade que uma lingual era flada em Gênesis 1-10 (cf. Samuel Noah Kramer, The Babel of Tongues: A Sumerian Version [A Babel das Línguas: Uma Versão Suméria], "Journal of the American Oriental Society, 88:108-11), então precisa ser claramente afirmado que não era o hebraico. Potanto, todos os jogos de palavra hebraicos são da época de Moisés. Isso comprova a natureza literária de Gênesis 1-11.

4. Eu gostaria de fazer um comentário pessoal. Eu amo e aprecio aqueles que amam e apreciam a Bíblia. Eu sou tão grato pelas pessoas que têm sua mensagem como uma mensagem inspirada, autoritativa do Único Deus verdadeiro. Todos que estudam as Escrituras estão tentando adorar e glorificar a Deus com nossas mentes (cf. Mt 22.37). O fato que nós como crentes individuais abordamos a Bíblia diferentemente não é um aspecto de descrença ou rebelião mas um ato de sincera devoção e uma tentativa de compreender de forma a incorporar a verdade de Deus em nossas vidas. Quanto mais eu estudo Gênesis 1-11 e para esse assunto, muito do livro de Apocalipse, eu percebo que é verdadeiro mas literário, não literal. A chave ao interpretar a Bíblia não é minha aplicação de uma rede pessoal filosófica ou hermenêutica sobre o texto as permitir que a intenção dos autores originais inspiradas se expresse plenamente. Tomar uma passagem literária e exigir que seja literal quando o texto dá digas para sua natureza simbólica e figurada impõe meus preconceitos numa mensagem divina. Gênero (tipo de literatura) é a chave numa compreensão teológica de "como tudo começou" e "como tudo terminará". Eu aprecio a sinceridade e compromisso daqueles que, por qualquer razão, geralmente tipo de personalidade ou treinamento profissional, interpretam a Bíblia em categorias modernas, literais, ocidentais, quando de fato ela é um livro antigo oriental. Eu digo tudo isso para dizer que eu sou grato a Deus por aqueles que abordam Gênesis 1-11 com presuposições que eu pessoalmente não compartilho, pois eu sei que eles ajudarão, encorajarão e alcançarão pessoas de personalidades e perspectivas semelhantes a amar, confiança e aplicar o Livro de Deus a suas vidas! No entanto, eu não concordo que Gênesis 1-11 ou o livro de Apocalipse deveriam ser aordados literalmente, se é Creation Research Society [Sociedade de Pesquisa da criação] (i.e. terra jovem) ou Reasons to Believe [Razões para Crer] (i.e. terra antiga) de Hugh Ross. Para mim essa seção da Bíblia enfatiza o "Quem" e "por que" não o "como" e "quando" da criação. Eu aceito a sinceridade da ciência moderna ao estudar os aspectos físicos da criação. Eu rejeito o "naturalismo" (i.e. toda a vida é um desenvolvimento casual de processos naturais), mas certamente vejo processo como um aspecto válido e demonstrável de nosso mundo e universo. Eu vejo que Deus dirigiu e usou processo. Mas processos naturais não explicam a diversidade e complexidade da vida, atual e passada. Para compreender verdadeiramente a realidade atual eu preciso tanto dos modelos teóricos da ciência moderna quanto dos modelos teológicos de Gênesis 1-11. Gênesis 1-11 é uma necessidade teológica para compreender o resto da Bíblia, mas é uma apresentação antiga, literária, sucinta, artística, oriental, não uma apresentação literal, moderna, ocidental.

Partes da Bíblia são certamente narrativa histórica. Há um lugar para a interpretação literal da Escritura: houve um chamado de Abraão, um Êxodo, um nascimento virginal, um Calvário, uma ressurreição; haverá uma segunda vinda e um reino eterno. A questão é de gênero, não de realidade, de intenção autoral, não de preferências pessoais na interpretação. Que todos os homens sejam mentirosos—e Deus seja verdadeiro (cf. Rm 3.4)!!!